Toxoplasmose em Santa Maria: Ministério da Saúde conclui primeira fase de investigação sem identificar causa do surto 

Nos primeiros meses de 2018, as suspeitas apontavam apenas para um grande número de casos de síndrome febril em Santa Maria. Em abril, foi confirmado pelas autoridades que se tratavam de um surto de toxoplasmose. Passado quase meio ano do surgimento dos primeiros pacientes e de um mês de investigação que envolveu técnicos do Ministério da Saúde, a causa da propagação da doença continua sem identificação e nenhuma possibilidade é descartada. Já é o maior surto da enfermidade registrado no mundo.

Em uma coletiva de imprensa na tarde desta segunda-feira (18), foi apresentado o boletim atualizado da doença no município. Até o momento, são confirmados 569 casos de toxoplasmose – 59 a mais do que no último levantamento divulgado em 8 de junho. Desse total, 50 são gestantes; três resultaram em óbitos fetais; e dois em abortos. Há, ainda, 312 casos em investigação. A doença atinge 38 de 41 bairros de Santa Maria.

 

No encontro – que reuniu representantes do Ministério da Saúde, do Estado e do município –, o coordenador de Doenças Transmissíveis do ministério, Renato Alves, afirmou que o trabalho dos técnicos do governo federal foi concluído na semana passada, mas disse que ainda é preciso fazer a relação desses dados para identificar quais semelhanças existem entre eles. Por isso, não há um prazo específico para identificar a possível fonte de propagação do surto:

— As investigações de surto de toxoplasmose, de maneira geral, são bastante complexas e demandam muito tempo. É preciso identificar casos, se aconteceram em um mesmo período de tempo. Esse talvez seja o maior desafio. A partir disso, é feita uma investigação de campo, com aplicação de questionários, coletas de dados. O momento em que estamos agora é da análise preliminar desses dados, só descritiva. Ainda não se verificou se existe alguma associação entre os fatores de consumo das pessoas e a doença. A partir de agora, faremos uma análise estatística desses dados para ver se apontam em alguma direção de uma possível fonte de infecção.

Alves explicou ainda que o Ministério da Saúde se baseou em 88 casos confirmados da doença – que passaram pelo teste de avidez, que detecta o período da infecção – para traçar o perfil epidemiológico:

— Esses 88 casos são um recorte, uma amostragem do total de casos confirmados, com o objetivo muito específico de identificar uma fonte de infecção a partir deste estudo. Isso não significa que o surto se resume a esses 88 casos. A nossa técnica de investigação foi comparar um grupo de casos confirmados, no caso os 88, e um grupo de pessoas que não são doentes. Comparando esses grupos é que vai se chegar a um possível fator da infecção. O total girou em torno de pouco mais de 230 pessoas investigadas.

As autoridades encaminharam, nos dias 5 e 6 de junho, mais sete amostras de água para o Laboratório Central de Saúde Pública do Rio Grande do Sul (Lacen) para primeira análise. Depois, elas iriam para a Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. Quatro amostras são de açudes, duas de poços artesianos, e uma de uma vertente de água. Também foram colhidas amostras de lodo dos reservatórios de água e mais duas coletas de reservatórios em locais com casos confirmados. Os resultados devem sair em até 15 dias.

Um primeiro lote de amostras, coletadas na Estação de Tratamento (ETA) da Corsan e em residências na cidade e também analisado pela UEL, no início de maio, tiveram resultado negativo quanto à presença do DNA de Toxoplasma gondii, agente causador da toxoplasmose.

Em maio, infectologistas de Santa Maria fizeram duras críticas a forma como as autoridades estariam lidando com o surto de toxoplasmose. Entregaram uma nota técnica ao Ministério Público, apontando irresponsabilidade por parte da prefeitura, cobrando respostas e descrevendo um cenário alarmante. A administração municipal afirma que, logo após a divulgação do documento, os especialistas fizeram esclarecimento em que reconheceram o empenho da prefeitura em enfrentar o surto.

Tratamento

No início do mês, o Ministério Público Federal (MPF) ajuizou uma ação contra a União para garantir o repasse de três medicamentos – espiramicina, sulfadiazinha e pirimetamina –considerados estratégicos para tratar a toxoplasmose em pacientes que exigem mais cuidado como os imunodeprimidos, crianças com menos de dois anos e gestantes. No ano passado, a compra desses medicamentos foi centralizada na União.

A ação foi movida baseada em um relatório apresentado pela 4ª Coordenadoria Regional de Saúde (4ª CRS) em conjunto com a prefeitura, que apontou que a quantidade desses remédios seria suficiente até, no máximo, o fim deste mês.

Conforme a procuradora da República Bruna Pfaffenzeller, a União, por meio de posicionamento emitido na última sexta-feira (15), alega compras e empréstimos desses remédios posteriores ao levantamento que foi fornecido ao MPF:

— O governo federal se manifestou na última sexta-feira, afirmando que, por conta de empréstimos de outros entes federativos e de aquisição do Estado, o município teria abastecimento de espiramicina para 17 meses, pirimetamina para três meses e sulfadiazina para três meses, “considerando o atual estoque, a necessidade mensal estimada, a recomendação de uso e a evolução benigna da doença”.

Diante das informações prestadas pelo Ministério da Saúde, após o ajuizamento da ação civil pública, o poder judiciário intimou o Estado e o município a apresentarem novo relatório sobre o estoque atual de medicamentos para tratar a toxoplasmose em Santa Maria e a estimativa da quantidade necessária para tratamento dos pacientes com a doença. O prazo dado é de cinco dias a contar do recebimento da intimação que foi emitida nesta segunda-feira. Após isso, o MPF irá se manifestar sobre a necessidade ou não da concessão da liminar que foi solicitada em 8 de junho.

Durante a coletiva de imprensa, na tarde desta segunda, o titular da 4ª Coordenadoria Regional de Saúde, Roberto Schorn, afirmou que o estoque, agora, tem duração por mais três meses:

— Não tenho o número exato de medicamentos disponíveis agora, mas posso garantir que, para mais cerca de 90 dias, teremos condições de fornecer. Isso vai depender muito também da quantidade de pacientes que forem diagnosticados com toxoplasmose. Nós recebemos alguns medicamentos de outros Estados e municípios. Além disso, o Estado concluiu uma licitação de compra desses medicamentos, que devem chegar ao município ainda essa semana.

O coordenador de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Renato Alves, afirmou que o assunto foi tratado em uma reunião entre União, Estado e município e que o estoque atual supre a demanda:

— A nossa preocupação hoje é garantir que todas as pessoas que precisem de medicamento sejam atendidas. Hoje, por meio da organização que está sendo feita com acompanhamento do Ministério e da Secretaria Estadual e Municipal de Saúde, o estoque dá conta de atender toda a demanda. Estamos acompanhando de acordo com o nosso cronograma regular de medicamentos e, se houver necessidade, outras alternativas serão buscadas.

Medidas de prevenção

Diante da incerteza do que provocou o surto em Santa Maria, o Ministério da Saúde recomenda que as medidas de prevenção sejam mantidas:

— Precisamos conscientizar a população das medidas que precisam ser tomadas independentemente do resultado de qualquer investigação. Uma investigação epidemiológica, nem sempre vai apontar com certeza uma fonte de infecção e por isso esses cuidados precisam ser tomados. Os principais são ingerir carne bem cozida, alimentos in natura bem higienizados e tomar água fervida ou filtrada — declarou o coordenador de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde.

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